quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O clima ruim derrubou o líder!



O pensamento sistêmico aplicado às organizações é uma abordagem inovadora, prática e ao mesmo tempo uma forma profundamente humana de olhar para as organizações. Através de técnicas que podem ser utilizadas em grupos ou individualmente é possível obter-se respostas para dinâmicas que ocorrem nas empresas mas nem sempre são facilmente percebidas pois ocorrem no nível sutil e através de processos inconscientes.

As constelações são técnicas utilizadas para extrair do inconsciente da empresa ou do indivíduo estas dinâmicas que por vezes geram conflitos, paralisia, falta de cooperação, estagnação, desânimo, desmotivação e tantas outras conseqüências organizacionais. Através das constelações esta realidade até então sutil torna-se visível e consciente possibilitando, através desta visualização, eventuais mudanças no sistema que permitam o seu desenvolvimento.

As dinâmicas nos sistemas são geradas pelo próprio sistema que tende a repetir seus padrões em busca do equilíbrio sistêmico. Estas dinâmicas foram geradas pela predisposição mental dos integrantes do sistema e influenciam a dinâmica mental daqueles que participam no sistema determinando a qualidade de relacionamento de interdependência entre estes elementos. Daí a importância de se trabalhar a liderança dos sistemas e eventualmente promover mudanças no próprio sistema para que a organização possa desenvolver-se de forma plena e contínua.

Um bom exemplo da aplicabilidade destes conceitos (e temos dezenas de exemplos todos os dias nos jornais), é a demissão de um dos mais consagrados e respeitados técnicos de futebol do Brasil do seu clube. Uma matéria do caderno de esportes da Folha de São Paulo, assinada por Martín Fernandez, cita fatos, passagens e posições que deixam muito claro como a demissão do técnico foi construída.

Eu não usaria o tema futebol aqui no blog se a matéria não fosse incrivelmente didática para explicitar a aplicabilidade do tema pensamento sistêmico nas organizações. Cito abaixo alguns trechos da reportagem comentando-os para melhor esclarecimento. A matéria em sua íntegra pode ser lida no caderno de esportes da Folha de São Paulo, sábado, 25/09/2010.

O título muito sugestivo é: "Clima ruim derrubou Luxemburgo. Técnico, demitido anteontem, vivia conflito com elenco do Atlético-MG."

Alguns trechos interessantes:

- Não foram apenas os maus resultados que derrubaram Vanderlei Luxemburgo no Atlético-MG. O técnico caiu porque também perdeu o controle sobre os atletas.

Podemos entender o termo perder o controle como sinônimo de perder o respeito, a liderança. Observamos também que maus resultados somados a incapacidade de liderança para reversão da situação, é que determinaram o desfecho da história. Nunca saberemos o que aconteceu primeiro, se a falta de liderança gerou os maus resultados ou se a liderança foi perdida em função dos maus resultados, mas o título é um tanto esclarecedor, o clima ruim (resultados+falta de liderança) determinou o desfecho.

- As declarações do treinador irritaram os jogadores mais experientes do elenco, mesmo aqueles que ele havia indicado para o clube. A avaliação geral era de que o treinador capitalizava sozinho as vitórias e atribuía as derrotas aos jogadores.

Aqui percebemos uma dinâmica muito comum nas organizações. Quando as coisas não vão bem e o líder não busca dentro de si a resposta, assumindo a responsabilidade pela situação e mudando o que precisa ser mudado para revertê-la, colocando todo o peso dos resultados no "eixo dos outros" e ainda vangloriando-se quando algo de bom, mesmo que pontualmente ocorra, a resposta natural do grupo poderá ser: OK, você é muito bom então faça sozinho!

- O ambiente ficou pior no clube depois que o presidente incentivou a torcida a "dar um cacete" em jogadores que estivessem na noite de BH. Para se protegerem, os jogadores pediram para ficarem concentrados no CT do clube e o pedido partiu dos líderes do time para marcarem posição contra o técnico. Em resposta, um dos líderes foi colocado imediatamente na reserva, atitude esta que gerou na equipe um sentimento de punição ao jogador.

É indiscutível que o título mencionando o clima ruim foi muito feliz! Mas aqui verificamos que o objetivo do time, que deveria ser disputar os jogos e vencer, somar pontos e melhorar sua classificação foi simplesmente deixado de lado por todos que fazem parte daquele sistema, do presidente aos jogadores e provavelmente comissão técnica, roupeiros, cuidadores do gramado também, porque clima contagia! Quando os objetivos maiores do sistema são substituídos por disputas individuais, jogos de poder, ostentação dos egos e tudo mais sem importância para o sistema, todo o sistema se enfraquece e os resultados pioram, nesse caso, poderá levar mais de um ano para recuperar a situação anterior, caso o clube seja rebaixado.

- O assessor de imprensa de Vanderlei Luxemburgo, negou que o treinador tenha enfrentado problemas com os jogadores. "Simplesmente não funcionou. Não tem explicação. O relacionamento dele com todo mundo era ótimo lá".

O óbvio é bem difícil de ver. Talvez seja essa a melhor explicação para aquilo que o assessor afirma não ter explicação. As dinâmicas que ocorreram nesta situação determinaram o clima do sistema (que não se vê, mas sente-se), e o clima, como diz o título, derrubou o técnico!

- Havia ainda o racha entre o grupo de jogadores que estava no clube desde o ano passado e os que chegaram recentemente.

Respeite o sistema e as pessoas que até hoje ajudaram a construí-lo. Mas se algo não vai bem, contrata-se os chamados "resolvedores", que chegam cheios de si, desrespeitando a tudo e a todos. Quando falta respeito ao sistema, é natural novamente a dinâmica do: ah, você veio para resolver, então resolva sozinho!

Esse capítulo do futebol brasileiro (e tantos outros iguais virão), serve para elucidar como o sutil e o não visto determinam os resultados de uma organização. Não tenho dúvidas que se trata de um técnico altamente respeitado, que no elenco existem jogadores muito bons tecnicamente (sabem jogar futebol) mas a técnica determina 20-30% dos resultados, o restante está baseado em fatores relacionados a qualidade das relações.

Se, ao ler este post, você viu semelhanças entre estes relatos e a realidade de sua empresa ou organização, não terá sido mera coincidência e nestes casos, a aplicação dos conceitos do pensamento sistêmico organizacional podem ajudar!

Flávio Feltrin é sócio-diretor da essentya desenvolvimento sistêmico. Utiliza o pensamento sistêmico para ajudar profissionais e organizações a obterem melhores resultados.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A culpa é dos robôs


Por Flávio Feltrin

Após fazer meu último post no blog fui surpreendido com uma mensagem em minha caixa de entrada. A mensagem informava que meu blog havia sido considerado como blog de spam e portanto havia sido excluído!

Estupefato com a notícia, pois tenho como hábito informar sobre novos posts aos leitores, segui as instruções que me foram dadas para recuperar o blog, caso a exclusão tivesse sido um engano dos robôs!

Engano dos robôs? Fiquei realmente curioso com esta informação e comecei a pesquisar esta situação e descobri uma lista de discussão onde colaboradores da empresa que disponibiliza o blog prestam suporte aos desesperados que tiveram seus blogs excluídos pelos robôs! Apesar de ser um canal virtual, experimentei um sentimento bem humano quando recebi uma resposta de outro ser humano! E a resposta também foi bastante humana: "vc seguiu as instruções do blog para recuperá-lo?"

Foram três dias de blog fora do ar, alguns leitores me informando por e-mail do problema mas tudo foi resolvido, apesar dos robôs. O mais curioso e o motivo pelo qual eu escrevo esta experiência ímpar foi a mensagem que recebi quando o blog foi recuperado a qual reproduzo na íntegra:

"Os robôs de prevenção contra spam do Bloger detectaram que seu blog possui características de um blog de spams. Uma vez que você está lendo esta seção, seu blog provavelmente não é um blog de spams. A detecção automática de spams é inerentemente confusa. Pedimos desculpas por este falso sinal positivo.

Recebemos sua solicitação de desbloqueio em 3 de setembro de 2010. Em nome dos robôs, desculpamo-nos por bloquear seu blog, que não é de spams. Aguarde enquanto analisamos seu blog e verificamos se ele não é um blog de spams."

Sinceramente ainda estou em dúvida se esta mensagem foi escrita por um humano ou por um robô, mas parece ter sido escrita por um humano uma vez que, em nome dos robôs, pede-se desculpas! Desculpas em nome dos robôs???

Como analista de sistemas de formação, executivo de Centro de Serviços Compartilhados e de tecnologia da informação compreendo perfeitamente a intenção de se automatizar processos, ganhar produtividade e todas as possíveis justificativas mas tenho certa dificuldade em entender a razão de se desculpar em nome de um robô!

Pode até parecer um tanto moderno, futurista e até tentar passar uma imagem de empresa de alta tecnologia, que se utiliza de robôs para seus processos mas, ao analisar mais detidamente esta situação, percebemos que a atitude embutida na mensagem é muita humana. Diante de um problema ou de um resultado diferente do esperado, justifica-se e tira-se o foco da situação buscando nos outros a explicação, neste caso, nos robôs!

Uma atitude focada em resultados mantêm no seu eixo todo o discurso. Se você não entregou o resultado esperado, assuma sua responsabilidade. Se você não gosta do que faz, assuma sua escolha em continuar fazendo. Se você se julga infeliz, busque dentro de você a felicidade e não a coloque nas mãos dos outros. Se você quer fazer algo diferente mas tem medo, assuma que o medo é seu e se pacifique com ele. Se você gostaria que algo estivesse diferente em sua vida, assuma o compromisso de mudar o que for preciso! Mantenha-se no seu eixo!

Justificativas, prisão ao passado ou ao futuro, falas inúteis, auto-engano, comunicação tática, medo da reação dos outros, postura de "coitado", cultura do não, se ou quando, são todas atitudes desfocadas que não o levarão ao próximo passo de sua vida, são atitudes que muda seu eixo para o eixo dos outros quando só você tem o poder de mover-se em direção aos seus sonhos, suas conquistas e seus resultados! Centre-se no seu eixo!

Mas ainda falando dos robôs, quando seres humanos usam desta artimanha de sair do seu eixo e responsabilizar outras pessoas ou situações, temos a oportunidade de promover um diálogo, entender a situação e buscar uma solução, no entanto, se a moda pega e os seres humanos começarem a responsabilizar os robôs, que saída teremos?

Flávio Feltrin é sócio-diretor da essentya desenvolvimento sistêmico, consultor, master coach e constelador organizacional.