
O pensamento sistêmico aplicado às organizações é uma abordagem inovadora, prática e ao mesmo tempo uma forma profundamente humana de olhar para as organizações. Através de técnicas que podem ser utilizadas em grupos ou individualmente é possível obter-se respostas para dinâmicas que ocorrem nas empresas mas nem sempre são facilmente percebidas pois ocorrem no nível sutil e através de processos inconscientes.
As constelações são técnicas utilizadas para extrair do inconsciente da empresa ou do indivíduo estas dinâmicas que por vezes geram conflitos, paralisia, falta de cooperação, estagnação, desânimo, desmotivação e tantas outras conseqüências organizacionais. Através das constelações esta realidade até então sutil torna-se visível e consciente possibilitando, através desta visualização, eventuais mudanças no sistema que permitam o seu desenvolvimento.
As dinâmicas nos sistemas são geradas pelo próprio sistema que tende a repetir seus padrões em busca do equilíbrio sistêmico. Estas dinâmicas foram geradas pela predisposição mental dos integrantes do sistema e influenciam a dinâmica mental daqueles que participam no sistema determinando a qualidade de relacionamento de interdependência entre estes elementos. Daí a importância de se trabalhar a liderança dos sistemas e eventualmente promover mudanças no próprio sistema para que a organização possa desenvolver-se de forma plena e contínua.
Um bom exemplo da aplicabilidade destes conceitos (e temos dezenas de exemplos todos os dias nos jornais), é a demissão de um dos mais consagrados e respeitados técnicos de futebol do Brasil do seu clube. Uma matéria do caderno de esportes da Folha de São Paulo, assinada por Martín Fernandez, cita fatos, passagens e posições que deixam muito claro como a demissão do técnico foi construída.
Eu não usaria o tema futebol aqui no blog se a matéria não fosse incrivelmente didática para explicitar a aplicabilidade do tema pensamento sistêmico nas organizações. Cito abaixo alguns trechos da reportagem comentando-os para melhor esclarecimento. A matéria em sua íntegra pode ser lida no caderno de esportes da Folha de São Paulo, sábado, 25/09/2010.
O título muito sugestivo é: "Clima ruim derrubou Luxemburgo. Técnico, demitido anteontem, vivia conflito com elenco do Atlético-MG."
Alguns trechos interessantes:
- Não foram apenas os maus resultados que derrubaram Vanderlei Luxemburgo no Atlético-MG. O técnico caiu porque também perdeu o controle sobre os atletas.
Podemos entender o termo perder o controle como sinônimo de perder o respeito, a liderança. Observamos também que maus resultados somados a incapacidade de liderança para reversão da situação, é que determinaram o desfecho da história. Nunca saberemos o que aconteceu primeiro, se a falta de liderança gerou os maus resultados ou se a liderança foi perdida em função dos maus resultados, mas o título é um tanto esclarecedor, o clima ruim (resultados+falta de liderança) determinou o desfecho.
- As declarações do treinador irritaram os jogadores mais experientes do elenco, mesmo aqueles que ele havia indicado para o clube. A avaliação geral era de que o treinador capitalizava sozinho as vitórias e atribuía as derrotas aos jogadores.
Aqui percebemos uma dinâmica muito comum nas organizações. Quando as coisas não vão bem e o líder não busca dentro de si a resposta, assumindo a responsabilidade pela situação e mudando o que precisa ser mudado para revertê-la, colocando todo o peso dos resultados no "eixo dos outros" e ainda vangloriando-se quando algo de bom, mesmo que pontualmente ocorra, a resposta natural do grupo poderá ser: OK, você é muito bom então faça sozinho!
- O ambiente ficou pior no clube depois que o presidente incentivou a torcida a "dar um cacete" em jogadores que estivessem na noite de BH. Para se protegerem, os jogadores pediram para ficarem concentrados no CT do clube e o pedido partiu dos líderes do time para marcarem posição contra o técnico. Em resposta, um dos líderes foi colocado imediatamente na reserva, atitude esta que gerou na equipe um sentimento de punição ao jogador.
É indiscutível que o título mencionando o clima ruim foi muito feliz! Mas aqui verificamos que o objetivo do time, que deveria ser disputar os jogos e vencer, somar pontos e melhorar sua classificação foi simplesmente deixado de lado por todos que fazem parte daquele sistema, do presidente aos jogadores e provavelmente comissão técnica, roupeiros, cuidadores do gramado também, porque clima contagia! Quando os objetivos maiores do sistema são substituídos por disputas individuais, jogos de poder, ostentação dos egos e tudo mais sem importância para o sistema, todo o sistema se enfraquece e os resultados pioram, nesse caso, poderá levar mais de um ano para recuperar a situação anterior, caso o clube seja rebaixado.
- O assessor de imprensa de Vanderlei Luxemburgo, negou que o treinador tenha enfrentado problemas com os jogadores. "Simplesmente não funcionou. Não tem explicação. O relacionamento dele com todo mundo era ótimo lá".
O óbvio é bem difícil de ver. Talvez seja essa a melhor explicação para aquilo que o assessor afirma não ter explicação. As dinâmicas que ocorreram nesta situação determinaram o clima do sistema (que não se vê, mas sente-se), e o clima, como diz o título, derrubou o técnico!
- Havia ainda o racha entre o grupo de jogadores que estava no clube desde o ano passado e os que chegaram recentemente.
Respeite o sistema e as pessoas que até hoje ajudaram a construí-lo. Mas se algo não vai bem, contrata-se os chamados "resolvedores", que chegam cheios de si, desrespeitando a tudo e a todos. Quando falta respeito ao sistema, é natural novamente a dinâmica do: ah, você veio para resolver, então resolva sozinho!
Esse capítulo do futebol brasileiro (e tantos outros iguais virão), serve para elucidar como o sutil e o não visto determinam os resultados de uma organização. Não tenho dúvidas que se trata de um técnico altamente respeitado, que no elenco existem jogadores muito bons tecnicamente (sabem jogar futebol) mas a técnica determina 20-30% dos resultados, o restante está baseado em fatores relacionados a qualidade das relações.
Se, ao ler este post, você viu semelhanças entre estes relatos e a realidade de sua empresa ou organização, não terá sido mera coincidência e nestes casos, a aplicação dos conceitos do pensamento sistêmico organizacional podem ajudar!
Flávio Feltrin é sócio-diretor da essentya desenvolvimento sistêmico. Utiliza o pensamento sistêmico para ajudar profissionais e organizações a obterem melhores resultados.
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